"Tudo bem, trago o chocolate quente depois, então."
Quando o garçom retirou sua xícara, o agradecimento saiu baixo e abafado. Não está "tudo bem", caro garçom. Longe disso. Estava nervosa como há tempos não estivera. Suas mãos geladas e úmidas faziam movimentos tensos e contidos, constantemente amassando e desamassando um pobre guardanapo. Um origami de ansiedade.
Olhava incessantemente para a porta. A cada pessoa que surgia ela prendia a respiração, seu coração dava um salto e o guardanapo em suas mãos sofria as consequências. Esse processo se repetiu algumas vezes, até o momento em que ele finalmente apareceu.
Sentiu suas pernas amolecerem e o tempo pareceu congelar. Observou com carinho cada detalhe do seu rosto, e o esforço que ele fazia para tentar disfarçar sua cara de perdido a fez sorrir com ternura. Como era bonito.
Voltou a si e, dentro de todo seu nervosismo, decidiu resgatar o rapaz com um breve aceno, que foi respondido com um tímido sorriso. Tão lindo... tão lindo... Ele veio em sua direção e ela focou novamente em seu propósito. Desajeitado como sempre, sentou-se à sua frente e abriu um sorriso franco que quase a fez se derreter.
Recompôs-se rapidamente. "Desculpe, mas eu já estou indo", disse antes mesmo que ele pudesse cumprimentá-la, pois sabia que não resistiria à voz dele. "Logo deve chegar um chocolate quente que já deixei pago para você, porque sei que você gosta", ficou contente consigo por usar esse conhecimento para dar um toque de cuidado à situação desagradável. "E sei que você vai precisar", completou, se recuperando do devaneio e falando apressadamente.
Era chegada a hora de cortar os laços de uma vez por todas, contra toda a sua vontade. Ela inspirou profundamente. "O que tivemos foi maravilhoso e sempre terei muito carinho por você, mas…" Num átimo reviu todos os momentos vividos juntos. Como amava aquele homem. Como era feliz com ele por perto. Fraquejou. Forçou-se a lembrar o que a colocara naquela situação. Engoliu a seco e continuou.
"Não podemos continuar… me apaixonei por outra pessoa. Desculpe”.
Sentiu cada palavra pingando de sua boca com o peso da mentira. O peso também estava em seus olhos, que não conseguiam se erguer para encarar o enorme par de olhos intrigados, que a encaravam com estranheza. O peito também pesava, deixando sua respiração curta e difícil. O coração disparado não a ajudava a respirar, mas a impulsionou a levantar-se de súbito e ir embora, sem dar qualquer chance de ele se manifestar.
Ao alcançar a rua, sinalizou para o primeiro táxi que avistou e ao terminar de informar seu destino ao motorista seu rosto já estava encharcado pelas lágrimas que ela não conseguia mais segurar.
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