Saturday, October 10, 2015

Fica pra próxima...

"...e aqui temos a varanda."

Encantada, ela observa a vista. Tudo naquele apartamento é perfeito. Bem localizado, arejado, bem iluminado, cômodos bem distribuídos, o preço... Ela até já se visualizava construindo sua vida ali, envelhecendo feliz.

Vira-se sorridente para o corretor de imóveis: "É maravilhoso! Vou comprar!"

O corretor baixa os olhos, coça a barba e depois de alguns momentos em silêncio, dá a notícia: o imóvel já havia sido vendido.

Ela fica atônita encarando o rapaz à sua frente. "Mas... Por que você me trouxe até aqui e fez toda essa propaganda, então?"

Ele dá de ombros, "Achei que você fosse gostar... É bom saber que o lugar dos seus sonhos existe, não é?"

Incrédula, ela passa a mão nos cabelos e expira longamente. "É... Acho que sim... Não sei... Bom, me avise se desistirem da compra. Ou quem sabe resolvem alugar, sei lá..."

"Sim, claro. Tenho todos os seus contatos. Vamos nos falando."

Thursday, October 01, 2015

Dosagem

Há uns anos trabalhei em uma empresa que tinha chocolate quente à vontade. Daqueles de máquina: coloca o copinho, aperta o botão e - voilà! - chocolate quente sempre à mão. Cremosinho, delicioso. Era mágico!

Obviamente, não demorou muito para eu ficar viciada. Tomava um atrás do outro, todos os dias. Às vezes fazia variações, misturando com cappuccino ou colocando uma dose de leite puro, mas invariavelmente voltava à fórmula original: duas doses de chocolate quente. Copo cheio.

Comecei a montar meus dias em torno do chocolate quente: os horários, as refeições, as leituras, as idas ao banheiro... virou parte imprescindível e insubstituível do meu dia. Não importava se estava frio ou calor.

Na faculdade e em casa sentia muita falta. Nada conseguia chegar à altura daquele líquido precioso. A caminho do trabalho, ansiava por chegar e tomar meu primeiro copo. Na saída, o gole de despedida sempre deixava saudade.

Eu via outras pessoas tomando aquele chocolate quente, mas sentia que elas o menosprezavam. Como podiam tratá-lo como "apenas uma bebida qualquer - prefiro café"?? Incabível! Aquilo era tão gostoso! Ficava brava por desperdiçarem o que poderia ser meu.

Depois de um tempo, como acontece com tudo que é feito em exagero, começou a me fazer mal.

Para me preservar, me vi obrigada a parar. Muito a contragosto fui diminuindo a dose, substituindo por água... às vezes tinha uma recaída... foi um processo longo e bem chato. Sofri muito até conseguir eliminar o vício. Mas consegui.

Hoje gosto de chocolate quente tanto quanto gosto de muitas outras bebidas. Eventualmente tomo, só que já não me é essencial para o dia-a-dia.

Mas sempre vou lembrar com carinho daquela época. E nunca vou esquecer seu gosto.