Tuesday, August 30, 2016

Obscura mentira

"Tudo bem, trago o chocolate quente depois, então."

Quando o garçom retirou sua xícara, o agradecimento saiu baixo e abafado. Não está "tudo bem", caro garçom. Longe disso. Estava nervosa como há tempos não estivera. Suas mãos geladas e úmidas faziam movimentos tensos e contidos, constantemente amassando e desamassando um pobre guardanapo. Um origami de ansiedade.

Olhava incessantemente para a porta. A cada pessoa que surgia ela prendia a respiração, seu coração dava um salto e o guardanapo em suas mãos sofria as consequências. Esse processo se repetiu algumas vezes, até o momento em que ele finalmente apareceu.

Sentiu suas pernas amolecerem e o tempo pareceu congelar. Observou com carinho cada detalhe do seu rosto, e o esforço que ele fazia para tentar disfarçar sua cara de perdido a fez sorrir com ternura. Como era bonito.

Voltou a si e, dentro de todo seu nervosismo, decidiu resgatar o rapaz com um breve aceno, que foi respondido com um tímido sorriso. Tão lindo... tão lindo... Ele veio em sua direção e ela focou novamente em seu propósito. Desajeitado como sempre, sentou-se à sua frente e abriu um sorriso franco que quase a fez se derreter.

Recompôs-se rapidamente. "Desculpe, mas eu já estou indo", disse antes mesmo que ele pudesse cumprimentá-la, pois sabia que não resistiria à voz dele. "Logo deve chegar um chocolate quente que já deixei pago para você, porque sei que você gosta", ficou contente consigo por usar esse conhecimento para dar um toque de cuidado à situação desagradável. "E sei que você vai precisar", completou, se recuperando do devaneio e falando apressadamente.

Era chegada a hora de cortar os laços de uma vez por todas, contra toda a sua vontade. Ela inspirou profundamente. "O que tivemos foi maravilhoso e sempre terei muito carinho por você, mas…" Num átimo reviu todos os momentos vividos juntos. Como amava aquele homem. Como era feliz com ele por perto. Fraquejou. Forçou-se a lembrar o que a colocara naquela situação. Engoliu a seco e continuou.

"Não podemos continuar… me apaixonei por outra pessoa. Desculpe”.

Sentiu cada palavra pingando de sua boca com o peso da mentira. O peso também estava em seus olhos, que não conseguiam se erguer para encarar o enorme par de olhos intrigados, que a encaravam com estranheza. O peito também pesava, deixando sua respiração curta e difícil. O coração disparado não a ajudava a respirar, mas a impulsionou a levantar-se de súbito e ir embora, sem dar qualquer chance de ele se manifestar.

Ao alcançar a rua, sinalizou para o primeiro táxi que avistou e ao terminar de informar seu destino ao motorista seu rosto já estava encharcado pelas lágrimas que ela não conseguia mais segurar.

Wednesday, August 17, 2016

Clara verdade

A claridade incomodava seus olhos, que lacrimejavam enquanto piscava sem parar.

Atravessou a rua com passos rápidos e ansiosos e entrou no pequeno café. O ambiente estava escuro e demorou para que seus olhos se acostumassem. Enquanto se adaptava à súbita mudança de iluminação, ficou imaginando o que as pessoas pensariam ao vê-lo parado na porta, com cara de perdido.

Se preocupar com a imagem passada para os outros era uma constante que consumia grande parte do seu tempo e pensamento. Roupas, cabelo, postura, tudo era meticulosamente calculado para agradar a quem ele sequer conhecia. Intimamente sabe que é batalha perdida, mas o hábito já havia se tornado parte de si.

As paredes tinham cor de sorvete de creme com detalhes em madeira escura que pareciam pedaços de chocolate, o que o fez inconscientemente sentir vontade de comer algum doce. Para se acomodar, havia opções de mesinhas redondas com cadeiras estofadas ou pequenos sofás em couro macio. O lugar era aconchegante, porém ele se sentia deslocado e desconfortável.

Passou os olhos pelo ambiente. Sempre tivera dificuldade em reconhecer rostos, por mais familiares que fossem, e por isso tinha receio de passar vergonha. Especialmente naquele momento. De soslaio, captou um breve aceno ao qual respondeu com um tímido sorriso. Ainda teve que conferir algumas vezes no arquivo mental se era a pessoa certa, antes de se encaminhar rapidamente à mesa no canto.

Fez o possível para parecer cômodo na cadeira e sorriu, dessa vez sem timidez. "Desculpe, mas eu já estou indo", disse a dona do aceno, a pessoa certa, antes que ele sequer pudesse cumprimenta-la. "Logo deve chegar um chocolate quente que já deixei pago para você, porque sei que você gosta. E sei que você vai precisar", continuou, falando apressadamente.

Ele franziu o cenho, estranhando sua pressa e modo de falar. Ela inspirou profundamente. “O que tivemos foi maravilhoso e sempre terei muito carinho por você, mas... não podemos continuar... me apaixonei por outra pessoa. Desculpe”. Levantou-se e saiu de supetão. Sem ao menos dar a chance de um adeus.

A verdade incomodava seus olhos, que lacrimejavam enquanto piscava sem parar.

Friday, August 05, 2016

Singular*


Entrei em colapso, atingi a singularidade e agora estou além do horizonte de eventos, presa em uma bolha de distorção temporal onde cada minuto demora uma eternidade para se arrastar e ao final de cada dia sinto-me atropelada por uma semana inteira.

Ao mesmo tempo, fora da bolha, em um piscar de olhos meses se passam sem que eu perceba e tudo parece estar ruindo a uma velocidade estonteante, que não consigo acompanhar. 

Mas é a apenas minha percepção temporal, pois esse nada mais é que o ritmo natural da ruína... digo, da vida.


*singular
adjetivo de dois gêneros ( sXIV)
1. único de sua espécie; distinto; ímpar
2. não vulgar; especial, raro
3. fora do comum; admirável, notável, excepcional
4. não usual; inusitado, estranho, diferente
5. que vale por si só; significativo, característico
6. que causa surpresa; surpreendente, espantoso; extravagante, bizarro
7. lóg que se aplica a um sujeito único
adjetivo de dois gêneros e substantivo masculino
8. gram do ponto de vista semântico, diz-se de ou o número que indica uma só pessoa ou coisa