Estava abalada por fatos da vida e com um pouco de tempo sobrando, então resolveu passar no mercadinho da rua antes de subir para o escritório, para tentar fazer seu dia um pouco mais suportável.
Passeou com calma por todos os corredores e foi pegando itens que fossem do seu agrado: peras, iogurte, aveia, leite, chás (um vício), cápsulas de café (outro vício), bolachinha integral, cenourinhas... quando deu-se por satisfeita, dirigiu-se ao caixa, terrivelmente arrependida por não ter pegado uma cestinha para carregar as compras com mais conforto.
Era do seu feitio pegar mais coisas do que achava que iria pegar.
Com exceção das peras, que vêm num saquinho com alça, o resto era embalado em caixas. Aí fica fácil. O pacote de bolacha é cilíndrico, as cenourinhas vêm numa embalagem pequenina. Com tudo encaixadinho, é tranquilo segurar tudo nas mãos.
Foi colocando os itens no caixa e ao ver que a atendente estava com uma cara de segunda-feira, solidarizou-se e deu um sorrisão acompanhado de um alegre bom dia, para tentar amenizar um pouco. A atendente nem respondeu.
"CPF na nota?"
"Sim, por favor."
"Pode digitar."
Ela não tinha terminado de se desvencilhar das coisas, apressou-se, digitou o CPF e voltou a colocar os itens no caixa.
"Pode confirmar?"
"Ah, claro!"
Que erro, não? Esquecer de apertar o confirma. Confirmou e a atendente foi passando os itens.
"Vai precisar de sacola?"
"Vou, sim."
"Uma ou duas?"
"Ahn... deixa eu tentar uma, se não couber, pego outra."
A atendente revira os olhos impaciente, enquanto a espera brincar de Tetris na sacolinha.
"ACHO QUE VAI DAAAAR, HEEEIM???" e dá risada.
Finalmente consegue arrancar um sorriso da atendente. Contente com seu sucesso, ela paga, pega a sacola e as peras convenientemente embaladas e coloca-se a caminho da saída da loja. Ao passar pela porta, ela vê um vultinho preto de canto de olho. Volta.
Um pug.
Enorme! (para um pug, claro)
Ele a olha com uma cara tão simpática, que ela não resiste e fez algo que normalmente não faria: foi agradar o cão, que estava com a guia amarrada em um daqueles totens que ficam com panfletos promocionais em frente à loja.
O pug ficou TÃO extasiado que havia conseguido chamar a atenção de alguém que ia lhe dar carinho, que antes que ela chegasse até ele, ele foi ao encontro dela, todo felizão. Só que o tal do totem era uma estante fina, alta e... totalmente solta! E o tal do pug, grande, gordo, pesado e... totalmente empolgado!
Então ele correu e levou consigo o totem. Só que a guia estava amarrada na metade superior do negócio, o que fez com que o totem não fosse arrastado, mas sim tombado! Na direção dela. E, consequentemente, na direção do pobre cão, que ia ser esmagado.
Ela viu tudo acontecendo em câmera lenta, deu um salto pra frente e conseguiu - completamente desajeitada, com as sacolas na mão - segurar o bendito totem a centímetros de atingir o cão. Só que nisso, o treco bateu no carrinho que segura as cestas (aquelas, que ela nunca pega) e ele foi descendo em direção à rua...
E lá ela ficou, segurando o totem com uma mão, as sacolas com a outra, tentando segurar o bicho com o joelho esquerdo, tentando levantar o totem pra sair correndo atrás das cestas que estavam indo pro meio da rua, aquele monte de flyer espalhado pelo chão... que cena!
O carrinho das cestas, por sorte, era de um plástico levezinho, então ele não pegou muito embalo. Apenas desceu lentamente a calçada até a sarjeta e tombou de lado, sem grandes danos.
A atendente, que estava passando as compras de outra pessoa, ficou boquiaberta durante toda a série de eventos, assistindo sem saber o que fazer. O dono do cachorro, que tinha acabado de entrar e estava escolhendo frutas imediatamente ao lado de toda essa bagunça, só foi prestar atenção no que acontecia depois que a aflita moça já tinha dado um jeito de se reequilibrar e colocar o totem no lugar.
"FEI-JÃO! O que você está aprontando??" O dono do cão se agachou para começar a recolher os flyers. A moça também o fez, para ajudar, e não conseguiu conter o riso. "Feijão! Que nome maravilhoso!"
Assim que se agacha, o pug corre pra cima dela, balançando o corpo inteiro, porque só o rabo não dava conta de toda a empolgação.
O homem ri também. "É. E é um bagunceiro."
"Ele é lindo!" Claro que aí esqueceu-se de tudo e brincou um pouco com ele. Que cãozinho mais sensacional, feliz, brincalhão e com pelo brilhoso, macio e cheiroso.
Mas em seguida se recompôs e ajudou a recolher a papelada.
A atendente do caixa havia terminado de atender o cliente e saiu do seu posto para ir até a sarjeta recolher as pobres cestinhas. Ao voltar para a entrada, ela se dirige ao dono do Feijão. "Acho que seria melhor você amarrar ele aqui, ó!" e apontou para uma barra de ferro que saía da parede.
Ao ouvir a sugestão, a moça se prontificou. "Pode deixar que eu faço isso. Afinal, ele já pulou no meu colo, mesmo."
O moço abriu um sorriso. "Parece que ele gostou de você."
Foi só nesse momento que eles finalmente se olharam. Um instante que durou uma eternidade. Ela perdeu-se no sorriso dele, ele se pendurou nos longos cílios dela, ela quase se afogou nos olhos verdes dele, ele quis morar nos lábios dela, ambos escorregaram em suas peles e se emaranharam nos cabelos um do outro... o Feijão deu uma lambida no rosto dela.
"Ah... é! Parece que sim." Ela riu e secou a bochecha, torcendo para que ele não tivesse notado seu devaneio. "Eu... gostei muito dele também!" Disse enquanto se levantava. Ele se levantou também, desamarrou a guia do totem e a entregou para a moça.
"Obrigado."
Ela franziu a testa. "Pelo quê? Olha a bagunça que eu fiz!" Verificou se o novo nó estava seguro na barra de ferro e colocou o Feijão no chão com delicadeza, afagando atrás de sua orelha.
Ela franziu a testa. "Pelo quê? Olha a bagunça que eu fiz!" Verificou se o novo nó estava seguro na barra de ferro e colocou o Feijão no chão com delicadeza, afagando atrás de sua orelha.
"Por isso." Ele apontou para a guia amarrada na barra. "E por ser gentil com o meu cachorro."
"Que é isso... imagina... ele é uma doçura." Ela apanhou suas sacolas e fez menção de ir embora.
"Seria uma pena ele não ver mais sua nova amiga." Sorriu esperançoso, e no mesmo instante ela quase foi ao chão com aquele sorriso e com o sentido oculto naquela frase.
"Seria..." Percebeu que sua boca estava aberta, mas não se mexia. "Ahn... é claro! Anota aí meu telefone para quando ele quiser me ver novamente..."
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"Eita. Que bicho te mordeu, que esse sorriso besta não sai mais da sua cara??"
"Nada, não, Janine... Mercadinho bacana, esse que tem ali na esquina, né?"
"Nada, não, Janine... Mercadinho bacana, esse que tem ali na esquina, né?"
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