Eu estava no auge dos meus 18 anos. Mas não eram 18 anos comuns, eram os meus 18 anos.
Tive uma adolescência tardia e sempre vivi no mundo dos sonhos. Então aos 18 eu ainda tinha uma certa magia no olhar que me permitia fantasiar sobre pessoas e situações e manter uma dose estúpida de otimismo. Além disso, eu ainda era incrivelmente inocente e acreditava nas pessoas sem questionar.
O auge dos meus 18 anos consistia, portanto, em estar ganhando meus trocados no meu primeiro emprego, ter recém terminado meu primeiro namoro e não estar estudando. Isso me dava uma leve ilusão de liberdade e eu ainda não havia aprendido a lidar muito bem com tudo aquilo.
Foi nesse contexto que conheci o Sombra, em uma feira em que a empresa na qual eu trabalhava participou. Eu estava passeando pelo centro de eventos, distribuindo panfletos e convidando os visitantes a conhecer o nosso stand, quando me deparei com dois rapazes fazendo uma performance teatro-cômico-acrobática.
Estava engraçadinho, então fiquei assistindo de longe. Notei que, por baixo da maquiagem, um dos rapazes era feio de dar dó (e proporcionalmente engraçado), mas o outro era uma graça, super charmoso e - além de tudo - fazia mágica. Quando, em toda a minha inocência, notei que estava tendo meus olhares correspondidos, voltei a ter 15 anos de idade e fiquei tremendamente empolgada.
Passei mais algumas vezes por onde eles estavam se apresentando, descobri que os dois rapazes eram irmãos, conversamos um pouco sobre aleatoriedades a respeito da feira, e no final do último dia de feira (foram quatro) ele anotou meu telefone e se despediu de mim com um singelo selinho.
Em seguida à feira, teve um feriado e viajei para Ilhabela com meu irmão e uns amigos nossos. Qual não foi a minha surpresa quando no dia seguinte meu celular toca. Era o Sombra. Eu jamais imaginaria que aquele artista cheio de mistério e charme se interessaria o suficiente por aquela menina boba e desajeitada. Mas pareceu que sim e eu, claro, fiquei encantada e já comecei a fantasiar como toda adolescente idiota.
Ilhabela imediatamente perdeu a graça e eu ansiava pela volta, para poder encontrar o meu príncipe misterioso. Na época ainda se usava muito telefone para de fato falar, então conversamos bastante antes de nos encontrar e ele concordou em me acompanhar ao aniversário de uma amiga. Eu achava graça em tudo que ele falava e ele parecia ser a pessoa mais interessante do mundo.
A noite foi bem bacana e ele se mostrou muito cortês todo o tempo. Fiquei com vontade de vê-lo novamente e parecia que era recíproco, embora hoje eu perceba que boa parte dessa reciprocidade era apenas minha esperança preenchendo lacunas e achando justificativas para as evasivas dele.
De qualquer forma, depois de quase duas semanas ele finalmente concordou em me receber no bairro dele, que ficava a cerca de 50km da minha casa. Ele sequer se dignou a me encontrar no meio do caminho, mas eu nem me importava com isso: estava indo ver o homem que eu achava que gostava de mim e, afinal, o que era a distância para dois corações apaixonados??
Peguei um ônibus até a estação de trem, o trem até o metrô, o metrô até o ponto mais perto dele e outro ônibus até chegar lá (sem Maps, heim!!). Todo o peso da distância sumiu no instante em que o vi me aguardando no ponto de ônibus, cabelos ao vento e todo de preto, para adicionar à aura de mistério que eu havia criado em torno dele.
Fomos à casa dele (aproveitei para falar oi para o irmão feioso gente boa), ele me apresentou alguns pontos do bairro... Honestamente não lembro muito bem da ordem dos acontecimentos, mas em algum momento ele informou que tinha que buscar alguma coisa na casa de um amigo dele.
Sempre fui muito literal, e na época eu não tinha malícia, então se o rapaz me diz que precisa buscar algo na casa do amigo dele e ainda comenta que vai ser rápido, na minha cabeça nós vamos passar na casa do amigo dele, pegar o que quer que seja e seguir com o nosso encontro.
Ao chegarmos lá, entramos, mas o amigo dele não estava. Hoje eu sei que o amigo havia cedido o espaço para o Sombra poder ficar à sós comigo, mas na minha inocência da época, pensei que era apenas um ato legal de confiança entre amigos (o que não deixa de ser verdade).
Ele fez que mexeu em alguma pilha de uma bagunça qualquer, depois mexeu em outro canto e então sentou na cama e me chamou para perto dele. Fiquei em pé em frente a ele e começamos a nos beijar. Pouco depois me sentei ao lado dele e em seguida já estávamos deitados.
Até aí, terreno conhecido, tudo bem. Ele começou a passar a mão na minha barriga, subir para os meus seios e comecei a ficar um pouco desconfortável. Eu só havia chegado a esse ponto com meu ex-namorado e só tínhamos chegado até lá por termos construído uma intimidade cercada por carinho e amor, sempre na segurança do quarto dele. Em contrapartida, essa era apenas a terceira vez que eu via o Sombra, eu estava na casa de um completo estranho, em um quarto todo zoneado... já não estava me sentindo tão bem naquela situação.
Foi então que ele desabotoou minha calça.
Eu segurei a mão dele e disse não. Ele disse que tinha camisinha. Eu informei que era virgem e que não queria fazer nada naquele momento. A mão dele não se moveu e ele disse que iria "por só a cabecinha". Eu continuei dizendo que não queria. Ele foi para o zíper, dizendo "quero só te sentir". Nessa hora, o desconforto já havia se transformado em um leve pânico.
Eu disse, mais uma vez, que não e a tragicomicidade da afirmação seguinte dele é sensacional: "Ah, vai... eu não vou fazer nada que você não queira." Meu rapaz... estou há um tempão dizendo que não quero e você continua fazendo!
Até então estava tendo um jogo de forças entre eu segurar a mão dele e tentar afastá-lo e ele se forçar para cima de mim e tentar me despir, mas era pouca coisa acima do sutil. Eu ainda tinha esperança de que nos entenderíamos conversando. Enfim, eu disse não de novo, mas ele passou da sutileza para a agressividade e conseguiu abaixar as minhas calças.
Brotou um medo real. Eu estava com um cara prestes a me violentar, em um lugar totalmente desconhecido para mim, anoitecia e eu não tinha a menor noção de como voltar para casa... até hoje não sei como, mas na mesma fração de segundo em que tudo isso passou pela minha cabeça, eu consegui me desvencilhar dele, sair da cama e levantar as calças, tudo em um movimento só.
"Eu NÃO quero!"
Ele cobriu o rosto com o braço, bufou, ficou alguns angustiantes segundos em silêncio, até que disse: "Tá. Vam'bora." A partir desse momento, ele ficou super frio comigo e seguimos em silêncio até um ponto de ônibus, onde ele apenas informou o nome do ônibus que eu tinha que pegar e foi embora, quase sem se despedir.
As emoções que se aglomeraram comigo ali naquele ponto estranho à noite são quase indescritíveis, e é com muito pesar que afirmo que quase nenhuma delas colocava o Sombra em foco. Eu estava errada por ser oferecida e ter ido até lá. Eu estava errada por ter ficado sozinha com ele. Eu estava errada por ter usado um jeans um pouco mais justo. Pela reação dele, cheguei até a me sentir culpada por não ter cedido e, com isso, ter ferido os sentimentos dele.
Esse episódio me assombra até hoje. Da culpa eu já me livrei. Foi recente, mas finalmente entendi que absolutamente tudo que pensei estava errado. Poderíamos ter ficado ambos nus e ainda assim não tem essa de ficar amenizando pro lado dele e trazendo a culpa para mim: ELE é quem deveria ter respeitado o meu primeiro não. E ponto. Mas ainda hoje os estágios iniciais de envolvimento com alguém são um bocado tensos para mim, por mais que eu já tenha aprendido a contornar esse trauma.
Queria muito dizer que foi o único caso que aconteceu comigo. Ou o mais leve. Infelizmente, eu estaria mentindo. Certamente foi o mais tenso, por toda a atmosfera do desconhecido, mas não foi o primeiro, não foi o último e... não foi o mais traumático. Escolhi esse caso para narrar, pois foi o único em que eu realmente temi pela minha vida.
Tenho certeza que toda mulher do mundo tem pelo menos um caso de abuso para contar. Com quase a mesma certeza afirmo que elas se sentiram culpadas pelo ocorrido ou tiveram a culpa depositada nelas. E isso é absolutamente repugnante e revoltante.
NADA justifica atropelar o não de alguém e invadir seu corpo. NADA.
E a culpa NUNCA é da vítima.
E a culpa NUNCA é da vítima.
1 comment:
Saber que todas nós já passamos e talvez continuemos a passar por situações desse tipo é algo desanimador.
Pior é que tem coisa que a gente até esquece. Só me lembrei essa semana que tomei um exemplar de Sandman na cara por causa da acusação da Amber contra o Johnny Depp. Não que a gente deva remoer exaustivamente tudo, mas não é bom esquecer completamente.
A vida da gente vale muito pouco, a vontade da gente não vale é nada. =(
Post a Comment