Não sabia por onde começar. Seus olhos cansados vasculharam o cômodo apinhado de quincalhas. Itens valiosos misturavam-se a lixo, quase indistintos.
O que procurava estava ali. Tinha que estar. Em algum momento já tivera posse disso e tudo que já passara por suas mãos ia parar nesse lugar.
"É apenas uma coleção." Disse em voz alta como se explicasse isso a alguém, mesmo estando só.
Exalou vagarosamente e começou a caminhar com cautela pela bagunça. Era difícil não tropeçar ou pisar em algo, mas a determinação em encontrar o que procurava era maior que o medo de tomar um tombo ou cortar o pé.
"Onde? Tem que estar aqui! Sei que tenho... Já tive..." Distraiu-se ao começar a prestar atenção não no caminho que tentava percorrer até o outro lado do cômodo, mas sim nas coisas à sua volta.
Apanhou um velho porta-retratos, displicentemente jogado sobre uma pilha de enfeites coloridos. A armação que um dia fora dourada estava solta. Terminou de desmontá-la e livrou-se do vidro rachado que falhava em proteger uma fotografia.
Com cuidado, limpou a poeira que entrara sorrateira pelas frestas criadas pelo deterioramento do porta-retrato. Observou atentamente os rostos revelados. Conhecidos. Eram muitos. Talvez uma centena, talvez uma dúzia. As lágrimas impediam a contagem correta.
A enchente de sentimentos foi avassaladora. Absolutamente tudo que se acumulara naquele cômodo se resumia àquele retrato. Tudo tinha sido delas, por elas, com elas ou para elas. Dado, emprestado, roubado ou compartilhado. Chorava sincera e copiosamente, sentindo-se mais leve a cada soluço.
Depois de um tempo que poderiam ser horas ou apenas alguns instantes, secou as lágrimas e inspirou. Profundamente.
Não havia encontrado o que procurava, mas certamente achara o que precisava.
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