Como se fossem delicadas raspas de chocolate, seus cachos brincavam soltos emoldurando seu pequeno rosto enquanto olhava para baixo, pensativa. Sua dúvida pairava entre o roxo e o azul. Olhou para a enorme tela branca à sua frente e teve um pensamento esclarecedor: azul era a cor favorita da homenageada, portanto estava decidido. As outras cores seriam meras coadjuvantes.
No dia seguinte seria Dia das Mães e a menininha aproveitava o silêncio da noite para preparar uma surpresa. Sabia que sua mãe adorava seus desenhos, então resolveu inovar esse ano. Seria algo grande. Algo único. Algo que fizesse jus à grandiosidade da pessoa que era seu ídolo.
Pegou o seu estojo de canetinhas coloridas (aquelas de ponta grossa que se compra no começo do ano, junto com o material escolar) e empenhou-se por algumas horas. Caprichosa, ela desenhava cada detalhe, coloria cada vão uniformemente, fazia estrelas, árvores, passarinhos... por fim, fez um enorme e vermelho coração e escreveu "mamãe eu te amo" com letras redondinhas. Em azul, obviamente!
Deu alguns passos para trás e observou contente a sua obra de arte. Sentia-se a menininha mais feliz do mundo só de imaginar o sorriso no rosto de sua mãe ao ver tamanha dedicação. Com uma risadinha, ela apagou a luz e foi para o seu quarto, onde a ansiedade a fez demorar para dormir, porém dormiu em paz, sabendo que abrilhantaria o dia da sua amada mãe no dia seguinte.
Ao amanhecer, a menininha arrumou-se para ir à escola e seguiu saltitante até a cozinha para tomar o usual café-da-manhã em família. Pela expressão no rosto de todos, ninguém havia achado a surpresa ainda. Com um sorriso interno, a menininha comemorou. Ótimo. Vai ficar para a volta da escola. Até fingir que esqueceu da data comemorativa ela fingiu.
O dia transcorreu normalmente, com as atividades escolares tão enfadonhas como sempre, e sua ansiedade não podia ser maior ao ouvir tocar o sinal que anunciava o encerramento do dia escolar. Foi correndo para o portão e esperou. Alguns minutos depois, seu pai apareceu e, intrigada, ela entrou no carro. Não havia acontecido nada importante, sua mãe só saíra para resolver uns assuntos com as amigas.
Ah... então ela ainda não viu...
Seu pai fez companhia para ela na cozinha até que sua mãe chegasse e logo zarpou rumo ao trabalho. Pronto. Estava a sós com a pessoa mais importante do dia. Da sua vida! Ela não agüentou e resolveu apressar a surpresa.
- Mamãe...
- Hm...?
- Você sabe que dia é hoje?
Sua mãe desviou-se de seus afazeres com um princípio de sorriso. Quer dizer que a sua menininha não havia esquecido?
- Claro que sei, meu anjo.
- Eu fiz uma coisa para você. Quer ver? Vem cá!
Rapidamente, a menininha alcançou a mão de sua mãe e a apertou com força, puxando para que ela a seguisse. Estava quase correndo. Ela não cabia em si de felicidade, seu coração batendo apressadamente. Antes de abrir a porta da sala, ela parou.
- Fecha os olhos, mamãe.
Sua mãe foi bastante obediente. Fez umas micagens na frente dela, só para testar se ela realmente estava de olho fechado e, só então, escancarou a porta. Puxou sua mãe com cuidado e a colocou em frente à grandiosa obra de arte.
- Pronto! Pode abrir!
Depois de alguns segundos do silêncio mais profundo veio algo que a menininha nunca imaginou que pudesse acontecer.
- EU NÃO ACREDITO!
Sim. Eram essas as palavras que ela esperava ouvir... mas esse tom? Ela parece... brava?
- Meu Deus... isso daqui nunca vai sair... VAI JÁ PRO SEU QUARTO!
A menininha ficou olhando atônita para a sua mãe, que agora tinha o rosto transfigurado pela raiva e pelo desapontamento.
- Mas mãe... nem do beija-flor você gostou?
Desde sempre ouvira histórias de como sua mãe ficava encantada com as pequeninas criaturas, então nada mais lógico que ela pintasse um.
- Esse morcego aqui? Escuta, não quero falar a respeito disso. Vai JÁ para o seu quarto, porque eu não quero mais ver você na minha frente por hoje. TÁ ME OUVINDO? É O SEU CASTIGO POR ARRUINAR A PAREDE DA SALA! VAI!
Seus olhinhos se encheram d'água e ela se virou lentamente, rumo ao seu quarto. Chegando lá ela silenciosamente fechou a porta e, derrotada, sentou-se na cama. As lágrimas lavavam seu inconformado rostinho. Ao longe ela ouvia sua mãe praguejar nervosa, enquanto esfregava a parede.
Como se fossem delicadas raspas de chocolate, seus cachos brincavam soltos emoldurando seu pequeno rosto enquanto olhava para baixo, pensativa. Sua dúvida pairava entre o bom e o mau. As ações e as conseqüências. As intenções e como suas atitudes era recebidas. Lógico que ela não conseguiu identificar todas essas disparidades emocionais, estando no primor dos seus sete anos.
Eram muitas as dúvidas e ela não conseguiu focar seus pensamentos. Ela fez uma coisa boa, linda, colorida, com todos os elementos que sua mãe mais gostava. Muito azul! Por que, então, sua mãe a tratara assim? Deitou-se e chorou até dormir, embalada pelo abafado som cacofônico que vinha da sala, oriundo das ríspidas palavras que sua mãe proferia.
Conscientemente, ela não teve um pensamento esclarecedor, mas estava decidido: culpa era o que ficaria incutido para sempre na sua mente e a impediria de viver plenamente. Os outros sentimentos seriam meros coadjuvantes.
No dia seguinte seria Dia das Mães e a menininha aproveitava o silêncio da noite para preparar uma surpresa. Sabia que sua mãe adorava seus desenhos, então resolveu inovar esse ano. Seria algo grande. Algo único. Algo que fizesse jus à grandiosidade da pessoa que era seu ídolo.
Pegou o seu estojo de canetinhas coloridas (aquelas de ponta grossa que se compra no começo do ano, junto com o material escolar) e empenhou-se por algumas horas. Caprichosa, ela desenhava cada detalhe, coloria cada vão uniformemente, fazia estrelas, árvores, passarinhos... por fim, fez um enorme e vermelho coração e escreveu "mamãe eu te amo" com letras redondinhas. Em azul, obviamente!
Deu alguns passos para trás e observou contente a sua obra de arte. Sentia-se a menininha mais feliz do mundo só de imaginar o sorriso no rosto de sua mãe ao ver tamanha dedicação. Com uma risadinha, ela apagou a luz e foi para o seu quarto, onde a ansiedade a fez demorar para dormir, porém dormiu em paz, sabendo que abrilhantaria o dia da sua amada mãe no dia seguinte.
Ao amanhecer, a menininha arrumou-se para ir à escola e seguiu saltitante até a cozinha para tomar o usual café-da-manhã em família. Pela expressão no rosto de todos, ninguém havia achado a surpresa ainda. Com um sorriso interno, a menininha comemorou. Ótimo. Vai ficar para a volta da escola. Até fingir que esqueceu da data comemorativa ela fingiu.
O dia transcorreu normalmente, com as atividades escolares tão enfadonhas como sempre, e sua ansiedade não podia ser maior ao ouvir tocar o sinal que anunciava o encerramento do dia escolar. Foi correndo para o portão e esperou. Alguns minutos depois, seu pai apareceu e, intrigada, ela entrou no carro. Não havia acontecido nada importante, sua mãe só saíra para resolver uns assuntos com as amigas.
Ah... então ela ainda não viu...
Seu pai fez companhia para ela na cozinha até que sua mãe chegasse e logo zarpou rumo ao trabalho. Pronto. Estava a sós com a pessoa mais importante do dia. Da sua vida! Ela não agüentou e resolveu apressar a surpresa.
- Mamãe...
- Hm...?
- Você sabe que dia é hoje?
Sua mãe desviou-se de seus afazeres com um princípio de sorriso. Quer dizer que a sua menininha não havia esquecido?
- Claro que sei, meu anjo.
- Eu fiz uma coisa para você. Quer ver? Vem cá!
Rapidamente, a menininha alcançou a mão de sua mãe e a apertou com força, puxando para que ela a seguisse. Estava quase correndo. Ela não cabia em si de felicidade, seu coração batendo apressadamente. Antes de abrir a porta da sala, ela parou.
- Fecha os olhos, mamãe.
Sua mãe foi bastante obediente. Fez umas micagens na frente dela, só para testar se ela realmente estava de olho fechado e, só então, escancarou a porta. Puxou sua mãe com cuidado e a colocou em frente à grandiosa obra de arte.
- Pronto! Pode abrir!
Depois de alguns segundos do silêncio mais profundo veio algo que a menininha nunca imaginou que pudesse acontecer.
- EU NÃO ACREDITO!
Sim. Eram essas as palavras que ela esperava ouvir... mas esse tom? Ela parece... brava?
- Meu Deus... isso daqui nunca vai sair... VAI JÁ PRO SEU QUARTO!
A menininha ficou olhando atônita para a sua mãe, que agora tinha o rosto transfigurado pela raiva e pelo desapontamento.
- Mas mãe... nem do beija-flor você gostou?
Desde sempre ouvira histórias de como sua mãe ficava encantada com as pequeninas criaturas, então nada mais lógico que ela pintasse um.
- Esse morcego aqui? Escuta, não quero falar a respeito disso. Vai JÁ para o seu quarto, porque eu não quero mais ver você na minha frente por hoje. TÁ ME OUVINDO? É O SEU CASTIGO POR ARRUINAR A PAREDE DA SALA! VAI!
Seus olhinhos se encheram d'água e ela se virou lentamente, rumo ao seu quarto. Chegando lá ela silenciosamente fechou a porta e, derrotada, sentou-se na cama. As lágrimas lavavam seu inconformado rostinho. Ao longe ela ouvia sua mãe praguejar nervosa, enquanto esfregava a parede.
Como se fossem delicadas raspas de chocolate, seus cachos brincavam soltos emoldurando seu pequeno rosto enquanto olhava para baixo, pensativa. Sua dúvida pairava entre o bom e o mau. As ações e as conseqüências. As intenções e como suas atitudes era recebidas. Lógico que ela não conseguiu identificar todas essas disparidades emocionais, estando no primor dos seus sete anos.
Eram muitas as dúvidas e ela não conseguiu focar seus pensamentos. Ela fez uma coisa boa, linda, colorida, com todos os elementos que sua mãe mais gostava. Muito azul! Por que, então, sua mãe a tratara assim? Deitou-se e chorou até dormir, embalada pelo abafado som cacofônico que vinha da sala, oriundo das ríspidas palavras que sua mãe proferia.
Conscientemente, ela não teve um pensamento esclarecedor, mas estava decidido: culpa era o que ficaria incutido para sempre na sua mente e a impediria de viver plenamente. Os outros sentimentos seriam meros coadjuvantes.
1 comment:
E a menina saiu pra brincar com a amiga dela, que estava de castigo, por ter quebrado o vaso da mãe. E as duas riram tanto que esqueceram dos castigos.
Porque, afinal, era infância.
E era dia de sol.
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