Tuesday, September 04, 2007

Sem título mesmo, porque não merece.

Ela andava pela rua cantarolando mentalmente, animada com as perspectivas que o novo emprego oferecia e pensando com carinho no namorado que estava em outra cidade. Fazia um dia agradável, com uma excelente combinação entre o sol ameno e a brisa fresca, os galhos mais altos das árvores curvando-se gentilmente a cada sopro, os passarinhos chilreando despretensiosamente e de quando em quando um latido preguiçoso mostrava que o dia realmente estava bom demais para se preocupar com qualquer coisa.

Absorta em seus alegres pensamentos, ela nem notou que vinha tendo seus passos observados enquanto caminhava com a leveza de alguém em paz consigo mesma. De fato, não eram seus passos que estavam sendo observados. Em uma casa semi-construída mais à frente estavam quatro pares de olhos que se fixavam nas suas femininas curvas, delicadas e discretas, porém presentes.

Alguns poucos metros depois ela se sentiu observada. Retesou seus músculos e começou a caminhar sutilmente mais rápido, para poder evitar o que quer que fosse, caso houvesse necessidade. Num momentâneo desvio de foco conseguiu enxergar as oito lanças que estavam à espreita, aguardando o momento certo para...

Logo que as ondas reverberaram no seu pequeno tímpano, ela chegou a visualizar um suculento bife sendo frito. Chegou a conferir o relógio para certificar-se de que a hora do almoço já estaria próxima, porém ainda não fazia nem três horas que o sol havia despontado no horizonte. O som de fritura foi seguido por murmúrios indecifravelmente lascivos, o que a fez mirar com repulsa as quatro figuras recostadas no muro interminado e apertar ainda mais o passo. Fossem os olhos dela miras de alguma arma potencialmente letal, os quatro seres provavelmente teriam sido pulverizados. Ou, no mínimo, mutilados. No lugar certo. Esse mesmo! Não finja que não entendeu.*

Seu primeiro impulso foi de espancar um por um até a morte, pensamento esse que foi seguido por um quê de lucidez que a segurou e explicou que, além de eles serem visivelmente mais fortes, provavelmente não valeria toda a chateação de passar por todos os trâmites legais que tal ato acarretaria.

Num segundo instante, veio a vontade de lhes dar um sermão, pedir-lhes por respeito e os fazer imaginar que suas mães/irmãs/namoradas/tias/etc. poderiam estar no mesmo instante em outro ponto da cidade passando pela mesma desagradável situação. Eles não gostariam que isso acontecesse, gostariam? Novamente o seu cérebro a refreou, explicando que o entendimento deles sobre o conceito de "empatia" provavelmente era insignificante, senão nulo.

Não vendo o que podia fazer, seu dia já arruinado e plenamente irritada, ela saiu pisando duro, deixando escapar com raiva um "Bando de filhos da..." entredentes.


* O queee? Estou falando dos olhos, claro! Eu, heim...

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